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25
set

Indústria 4.0: “No Brasil, tecnologia ainda é vista como gasto, não como investimento, e isso precisa mudar”

Gianna Sagazio é diretora de inovação da Confederação Nacional da Indústria (CNI), superintendente do Instituto Euvaldo Lodi (IEL) e responsável pela Coordenação Executiva da Mobilização Empresarial pela Inovação.  Já foi assessora sênior do presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e coordenadora sênior de desenvolvimento estratégico no Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento.

Sagazio estará no painel Industria 4.0: a era das máquinas conectadas e seus reflexos na produtividade, onde avalia o conceito de indústria 4.0 no Brasil. Nesta entrevista, dá uma prévia do que será discutido no Congresso de Tecnologia e Inovação e aborda os desafios que a indústria brasileira encontra para inovar e aumentar a produtividade.

Saiba mais sobre os temas de indústria 4.0 que serão abordados no Congresso de Tecnologia e Inovação

Quais são as principais tendências em inovação na indústria em todo o mundo?

De maneira geral, o que temos visto é uma combinação cada vez mais sofisticada do uso de tecnologias que já existem. Falo da expansão do uso da internet das coisas, inteligência artificial, sensores, nanotecnologia, armazenamento em nuvem e análise de dados. Observamos que a indústria em todo o mundo, mesmo que em ritmo heterogêneo, tem usado e explorado cada vez mais o potencial da tecnologia de ampliar a produtividade, desenvolver novos modelos de negócio e também de amparar a tomada de decisão das empresas.

Já temos alguns exemplos de empresas que encontraram boas formas de aplicar tecnologias em seus processos? Enfim, já temos aqui no Brasil um grande case de indústria 4.0?

Recentemente, a CNI e o IEL fizeram um estudo de larga escala, em parceria com os institutos de Economia da UFRJ e da Unicamp, em que estudamos como oito tecnologias chave impactam dez setores produtivos particularmente importantes para o país. Na pesquisa de campo, feita com quase 800 grandes e médias empresas, constatamos que 1,6% da indústria brasileira opera na fronteira da tecnologia, isto é, na indústria 4.0. É pouco, mas as próprias empresas esperam dar um salto significativo nos próximos 10 anos. Não só será necessário como inevitável que as indústrias percorram esse caminho. Cito como exemplo de liderança tecnológica a Embraer, a GE, a Agrotools e a Grendene, que recentemente levou suas linhas de produção para outro patamar tecnológico.

Quais os desafios que os empreendedores brasileiros enfrentam para inovar em seus processos?

Acredito que há dois entraves importantes. O primeiro é o acesso a financiamento e aos instrumentos de fomento. Há, em geral, burocracia demais e recursos insuficientes, sobretudo para subvenção. A Lei do Bem, que é o principal incentivo fiscal para inovação no país, pode ser melhorada para permitir que mais empresas acessem seus benefícios. No Brasil, ciência, tecnologia e inovação ainda são vistos como gasto, não como investimento e isso precisa mudar. O que me leva para a segunda questão, que é a questão da educação, que é a base de toda a agenda da inovação. Educação de qualidade, em todos os níveis, forma profissionais melhores, mais empreendedores e inovadores.  Se olharmos para fora, fica fácil entender o que quero dizer. A Coreia promoveu uma verdadeira transformação no país tendo na educação a sua matriz. Hoje é uma potência industrial, referência em inovação, sede de empresas muito relevantes. Entre países continentais como o Brasil, em que o desafio é proporcional ao tamanho do nosso território, cito a China, que investiu US$ 8,5 bilhões em educação só entre 2011 e 2015. O resultado é um avanço extraordinário não apenas em rankings de educação, mas em rankings de inovação, em desenvolvimento industrial, competitividade.

Qual o papel do governo e dos órgãos de fomento brasileiros nesse processo? 

Os governos têm o papel de desenhar as políticas adequadas para incentivar as empresas a inovar e também tem um papel de alavanca no investimento privado. Inovar é correr risco e em economias inovadoras, como Estados Unidos, Alemanha e Inglaterra, esse risco é compartilhado entre a indústria e o governo. Funciona assim porque a inovação, quando bem-sucedida, beneficia toda a sociedade.  Além disso, o Estado deve enxergar os investimentos em inovação como uma oportunidade de desenvolvimento tecnológico e social.

Como a indústria brasileira pode se articular para ganhar competitividade no mercado global? 

Vários fatores influenciam a competitividade da indústria. Apresentamos 43 propostas aos candidatos à Presidência da República e pelo menos cinco – agenda de inovação, ensino de engenharias, indústria 4.0, sistema de propriedade intelectual e compras públicas como instrumento de desenvolvimento tecnológico – focam em diferentes aspectos da inovação que consideramos fundamentais para a virada de chave no crescimento brasileiro. São questões que não poderão ser ignoradas pelos próximos governantes, sob a pena de agravar a situação brasileira. E o ritmo da transformação digital é cada vez mais veloz e mais importante na competitividade dos países. A CNI e a Mobilização Empresarial pela Inovação (MEI) têm feito um trabalho consistente nesse sentido.